Atari — 25 de maio de 2019

Atari

Aqueles eram tempos complicados para quem gostava de jogos eletrônicos. Quase todos eles eram, além de difíceis (exigindo habilidades manuais quase sobre-humanas), infinitos…

Bom, na verdade, não sei se eram mesmo infinitos, mas eu, de fato, nunca cheguei ao fim de nenhum deles. Lembro que várias vezes cheguei a passar horas seguidas numa mesma partida de River Raid e perdi as contas de em qual fase eu estava… E isso sem a opção de salvar ou voltar pra tentar de novo naquela mesma fase. A morte definitiva, naquela época, era sempre uma sombra presente que te perseguia. Mas talvez essa fosse a parte mais interessante dos jogos de Atari.

Longe aqui de bancar o nostálgico chato, que acha que tudo de antigamente era melhor… De forma alguma! Adoro os gráficos realistas de hoje, a jogabilidade e as possibilidades dos mundos abertos… A reflexão dessa crônica, na verdade, tem menos a ver com games e mais com a nossa forma atual de vida em si.

Particularmente, acho que a vida deveria ser igual a um jogo de Atari… Naquela época a gente não se preocupava em chegar ao final, em alcançar alguma conquista que o jogo oferecesse, até mesmo porque não haviam recompensas para apaziguar alguma necessidade imediata de preencher vazios existenciais. Era apenas diversão. Pura e simplesmente assim. Fazer uma coisa apenas pelo prazer de fazer, sem se preocupar em conquistar algo ou mostrar pra alguém suas vitórias ou provar qualquer coisa.

Me incomodam essas necessidades modernas de procurar sempre objetivos ou metas ou qualquer outra justificativa para fazer algo. É como se tudo tivesse que ter um motivo. Outro dia me perguntaram por que eu gostava de caminhar na rua a esmo… E eu não soube responder, porque simplesmente faço isso apenas porque eu gosto. E dessa mesma forma, eu tento encarar as coisas, principalmente as relações com as outras pessoas. Sou de um tempo em que sentimento não tinha objetivo, nem recompensa, nem “troca”… Sou do tempo do Atari, do tempo em que Drummond falava: “eu te amo porque te amo”… Desse jeito simples, sem precisar explicar motivos… Porque não se precisa de motivos pra viver… nem para amar.

Pensando bem, acho que jogar Atari me preparou melhor para a vida. Porque ela, a vida, é essa coisa de aproveitar até quando der, do mesmo jeito que a gente só seguia a cada fase do jogo, sem saber onde ia chegar e sem se preocupar muito com isso… A gente só seguia, sempre fugindo da sombra da morte (e da perda da vida). Sempre em frente, até que… Game Over. Porque o fim vem… E em muitos casos bem antes de você espera.

A gente começava numa fase fácil, divertida, o avião vencendo os espaços, destruindo os vilões, reabastecendo o tanque, destruindo barreiras para poder seguir em frente. E enquanto isso, atrás da gente, vinha um monte de ameaças querendo nos destruir. E não tinha como dar pausa pra descansar ou pra analisar a melhor a estratégia. Era contínuo, as decisões precisavam ser tomadas na hora, sob pena de custar sua vida… A cada barreira nova, as coisas ficavam mais difíceis; e a gente não tinha aquela sensação que se tem nos jogos de hoje, de que vai se chegar ao fim. Naquela época, você não tinha espaço para essa busca por satisfação ou vaidade, só pra se sentir melhor porque zerou o jogo. O Atari era só jogar e se manter vivo até quando fosse possível… e nesse percurso, se divertir. Aproveitar e viver cada facilidade e cada dificuldade que se enfrenava…

Às vezes me parece que isso está se perdendo. Ouço em todo canto as pessoas falando sempre em razões pra suas ações… E até para seus sentimentos. “Tem que trabalhar numa coisa que te dê dinheiro”. “Como você pode gostar de alguém que não te oferece nada em troca?”. “Tem que malhar pra ficar boinita”. Nao sei se as coisas se resumem a resultados. Sempre achei que os resultados são apenas consequências das coisas que você faz por prazer.

Pensando nisso, abandonei objetivos e metas insignificantes (que atendem apenas a necessidades criadas sem meu consentimento por algum modelo de vida consumista desorientado) e que, pra mim, hoje, são até risíveis. Mas isso não tem a ver com ser inconsequente! Tem a ver com me sentir livre de pressões externas por apresentar resultados e conquistas… Esse tipo de busca não é uma experiência pessoal, passa a ser apenas uma forma de mostrar para os outros suas capacidades ou algo desse tipo; provar pra alguém algum coisa, numa necessidade infinita por aprovação.

Assim, hoje eu prefiro focar em viver e me divertir enquanto der… E a forma como conduzo cada dia, certamente vai me levar a lugares que, em alguns casos posso prever e em outros, não… Apenas faço o que gosto, junto de quem eu amo… E aproveito o jogo até as “minhas vidas” acabarem, porque nesse aqui não tem reset.

Tullio Andrade

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Gosto de ver você dormir — 23 de maio de 2019

Gosto de ver você dormir

Simplesmente lindo você dormindo. Perco a conta das noites que, ainda hoje, acordo na madrugada e caminho pelo apartamento… Perambulo pra lá e pra cá, como se quisesse disfarçar minha real intenção. Não tenho nada pra ver na cozinha, nem preciso verificar se a porta está realmente fechada. Tudo é só distração, como se eu tivesse que enganar a mim mesmo, quando a verdadeira intenção é apenas parar na porta do seu quarto e ficar te olhando dormir.

Chego na ponta dos pés, com cuidado para não atrapalhar o silêncio. E na penumbra da noite, fico ali… por incontáveis passagens de tempo, apenas observando seu ressonar… seus olhinhos lindos fechados. Com ternura. E mergulho no que existe de mais lindo em mim… em meu sentimento. Porque você é o melhor que eu posso esperar para o mundo.

Então fico ali, só contemplando, no meu silêncio. E apenas agradeço cada segundo que posso estar perto de você. Porque cada fragmento do tempo é, agora, o mais lindo de todos, simplesmente porque você existe na minha vida.

Às vezes eu cubro seus pés, que inquietos, sempre saltam do cobertor… Ou vejo sua temperatura só pra saber se não está com frio… E quando mais ousado, arrisco um carinho no seu cabelo encaracolado, que parece receber meu toque com maciez e agradecimento.

Gosto de te ver dormir… porque isso sempre me traz paz. E uma tranquilidade que não consigo em nenhum outro momento. Te ver é tudo que preciso para entender… entender tudo. Por isso te observo… Por isso eu não sei parar de te olhar… E quando ouço seu riso ou uma outra palavra, muitas vezes ininteligível, no meio do sono, me divirto e me alegro… e penso em quais sonhos você tem quando dorme assim tão terna…

Sempre adorei te ver dormir. Hoje, já grande demais pra caber sobre meu peito, a sensação é a mesma de pouco mais de uma década atrás, quando ainda pequena, todas as noites adormecia no meu colo… como que ouvindo meu coração contar histórias de amor e felicidade. Histórias que espero que sejam as suas histórias… Porque você não merece nada menor que isso.

Às vezes eu tento eternizar em palavras nem que seja uma fração desse amor que nos une, que nos nutre, que faz da gente o que somos… Mas não consigo. É impossível representar graficamente uma força tão intensa e verdadeira e pura e linda como essa. Então apenas… sinto. A todos os momentos, principalmente quando te vejo sonhar…

E sabe qual é a parte mais linda de te ver dormir? É que sei que você vai acordar… E vai chamar meu nome… E me abraçar… E, mais uma vez, dizer que me ama. E é isso que importa… Só isso.

 

Tullio Andrade

Coaching — 21 de maio de 2019

Coaching

Tudo é questão de foco, esforço e determinação. Ninguém chega no sucesso por acaso. Não é à toa que hoje a minha história se tornou esse case emblemático de sucesso. Meio óbvio eu dizer isso, não é? Se não fosse, eu não estaria aqui fazendo a palestra de abertura do congresso de Coachings de 2020.

E querem saber? Aqui com vocês, pessoas que possuem um nível de esclarecimento muito além das demais, eu não preciso fingir qualquer tipo de falsa modéstia… Até mesmo porque o nosso foco é outro. Estamos aqui para entender os processos que levam uma pessoa ao sucesso. E felizmente eu sou uma dessas pessoas.

Na verdade, sucesso, pelo menos ao meu ver, é você alcançar seus objetivos. Não tem a ver nem sempre com dinheiro ou fama. Às vezes isso vem junto, mas na real tem mais a ver com satisfação pessoal… com realizar sonhos. E isso só é possível quando sonhos se tornam objetivos. E objetivos são organizados em metas… e metas em ações. Só assim a gente chega no topo.

Eu, por exemplo, sempre tive essa vocação para a área de Direito. A ideia de justiça e de poder, além da possibilidade de decidir a vida das pessoas, obviamente amparado em preceitos morais e éticos, me fascinava. Então desde cedo, pra mim, tudo ficou muito claro. E o primeiro passo (e talvez o mais importante) é sempre saber onde se quer chegar. E eu sabia. Eu queria o topo. Então tracei minha rota até lá… Transformei meu sonho em objetivo e dividi esse objetivo em metas… e logo, em ações. Então, passar na faculdade de Direito e, em seguida, no concurso para Juiz Federal, nada mais significou do que etapas necessárias para o meu sucesso.

Na época, muita gente achou que eu já havia conquistado o topo… Mas embora tenha sido uma atividade gratificante, ser Juiz Federal não era o meu objetivo maior. Na minha área de atuação eu sabia onde eu queria chegar, o Supremo Tribunal Federal. O topo. Nesse país não tem ninguém que possui maior poder de decisão do que um ministro do STF. E era isso que eu queria.

Mas o tempo passava e parecia que não seria um sonho possível. Porque dessa vez não dependia apenas de minhas ações. Eu precisaria de alguma forma influenciar opiniões e sobretudo as ações de outras pessoas. E foi quando eu vi a oportunidade perfeita. Alguns podem falar em sorte, mas sorte não é um fator crível… Ela não existe, sorte nada mais é do que você saber identificar uma oportunidade e estar totalmente pronto pra se valer dela… E foi o que fiz quando aquela operação caiu no meu colo.

Todo aquele esquema de corrupção no governo Federal foi a cartada decisiva que eu precisava para sair do anonimato e ganhar notoriedade suficiente para poder influenciar as pessoas que eu precisava influenciar. Lembro que logo que as primeiras repercussões desse assunto caíram na imprensa, eu falei com a minha cônge que aquele era o meu momento. Então, o que fiz foi usar a competência que eu já tinha para usar os códigos, normas e leis para pressionar os Tribunais e a imprensa de forma que eles conseguissem aquela condenação. Era a primeira vez que o país via um presidente da República preso.

Essa foi a grande virada pra mim. A primeira e mais importante meta nesse processo a caminho do sucesso. A caminho do topo. Com ele preso, o caminho das eleições estaria aberto para qualquer candidato da oposição vencer. Então, aí foi só saber ler bem o cenário político na época para me fazer presente no meio deles. Sempre mantendo aquela distância (bem próxima) para não parecer que eu havia me vendido, mas sem ficar longe demais a ponto de ser descartado do jogo político.

Mas, pra mim, nunca se tratou de me vender. Eu apenas fiz o que achei ser o certo. E qual o crime que cometi, se por causa disso me beneficiei de alguma coisa? Vocês riem, mas falando sério agora… Se foi certa ou errada aquela condenação, será que importa agora? O que está feito está feito, sem falar que nesse processo eu não fui o único a dar sentenças… Tribunais depois de mim ratificaram meu entendimento. E se houve, como alguns dizem, qualquer tipo de lobby ou pressão por baixo dos panos para manter a prisão, já não é da minha responsabilidade. O que me importava era o meu objetivo maior… Meu caminho para o topo.

Dali para frente, então, foi tudo mais fácil. O candidato que apoiei venceu e eu larguei a magistratura após um pedido para ser ministro. Nos anos seguintes editei uma ou outra norma para justificar uma atuação engajada com o combate à corrupção, que sempre foi meu slogan de vida jurídica… e o passo seguinte foi natural e inevitável: a indicação ao STF.

Hoje estou aqui falando com vocês como integrante do Supremo Tribunal Federal, algo que, décadas atrás, eu achei que seria impossível. Mas eu estou aqui para provar para vocês que com determinação, um bom plano de ação e esforço, a gente chega aonde quiser…

Muito obrigado.

Tullio Andrade

15 de maio — 18 de maio de 2019

15 de maio

Não é só por 30%… ou 3,5%, como defendem os apoiadores incautos e incultos do governo. É muito maior que isso!

Mas a incapacidade desses apoiadores de entenderem que o contexto desse protesto é muito maior do que um mero percentual parece assombrar. Embora seja uma reação esperada de pessoas que escolheram enxergar a mundo pelo filtro opaco de suas bolhas de falsa informação e manipulação voluntária. Mas beira o mal caratismo essas pessoas proliferarem comentários gratuitos só para defender o indefensável… Então se pegam apenas repetindo, sem pensar, o discurso desesperado daqueles ligados ao governo, dizendo que os protestos, na verdade, são um ato político orquestrado pela esquerda comunista que quer a soltura de um prisioneiro e a tomada do poder… Ou então que não passa de mimimi de maconheiro vagabundo, porque não é nem um corte, é só um contingenciamento de 3,5%…

Sério?! É o máximo de argumento que essas pessoas são capazes de produzir?! Eu sentiria pena delas, se não estivesse agora com tanta “vergonha alheia” (só para usar uma expressão da moda).

Acho que, no fundo, ainda não perdi essa capacidade de me estarrecer com esse tipo de reação… Da mesma forma que me estarreci quando vi um ministro ir para a Tv explicar porcentagem usando chocolates. É como se ele estivesse dizendo que a população do país não tem capacidade de entender de outa forma… Uma coisa do tipo “tem que desenhar senão o povo não entende”! Isso não é só falta de respeito, é uma forma grosseira de tripudiar das pessoas… E o pior é que boa parte aplaude. Mas dessa vez não foi assim… E não vai mais ser…

Diferente da equipe de governo, eu acredito na capacidade das pessoas compreenderem que essa manifestação não foi só por porcentagens. Óbvio que somos contra cortes na educação. Como seríamos contra cortes nas saúde, na segurança e na previdência dos menos favorecidos. Nesse dia 15 de maio, não só os estudantes, a população em geral mandou um recado que vai bem mais além do que um discurso partidário. Não é esquerda contra direita. É o povo que provou que tem força ainda… Mesmo passando por cima de fake news e tentativas (essas sim, idiotas e inúteis) de plantar confusão na cabeça das pessoas, esse dia pode representar o começo do fim dessa artimanha escusa e perversa que se transfigura de governo. Esse 15 de maio foi um dedo em riste apontado pra cara do presidente (e sem precisar fazer “arminha”) gritando uma verdade que ele se treme de medo: “a gente não vai aceitar”!

E o quê a gente não vai aceitar? Não vamos aceitar cortes na educação; nem negociatas de 40 milhões para deputados aprovarem a reforma da previdência da forma como está; não vamos aceitar jogar uma arma na mão de cada cidadão e assim alimentar o caos; não vamos aceitar o discurso de ódio e a apologia à violência contra as minorias; não vamos aceitar panos quentes para abafar investigações sobre o caso Queiroz; ou sobre as candidaturas de fachada para fazer caixa 2 nas últimas eleições; não vamos aceitar uma proposta de previdência que só vai destruir a vida do mais pobre, enquanto as grandes empresas continuam com seus débitos milionários e suas isenções fiscais de “incentivo”; não vamos aceitar que a amizade entre a família presidencial e o principal suspeito do assassinato de Marielle seja tratada apenas como mera coincidência; não vamos aceitar a tese de que nunca houve negociata envolvendo prisão, eleições, ministério e uma vaga no STF… Não vamos nunca aceitar um presidente que não respeita o próprio povo que governa.

E esse recado, vejam só, não tem a ver com partido algum. Nem com o passado de um ou de outro. A indignação é com quem agora está no poder, fazendo uma devassa insana em todas as conquistas que as classes mais pobres alcançaram… tudo isso em prol de um direito inexistente de elites serem elites.

Então quando vejo um presidente, ou um apoiador dele, usar o passado como argumento, do tipo “Ah, mas fulano fez pior”, só me prova como estão desesperados e com medo… E como são tão rasos intelectualmente que não conseguem rebater um argumento com ideias, números e discussões saudáveis que não apelem para xingamentos e violência. Mas a gente já sabia disso, porque esse Messias falso nunca participou de debate algum seja onde for. Apenas se esconde e foge e esbraveja… Em resumo, um covarde. E eu cresci sabendo de uma coisa: os heróis não são covardes. Eles vão pra rua, sozinhos ou aos milhares, mostrar a cara e se arriscar e propagar as ideias e a vontade de um povo inteiro que grita em única voz que não vai aceitar. E nem a violência vai parar essa onda que lindamente começou… Que ela se espalhe por todos os cantos e acue os governantes despreparados e desorientados.

O que começou agora não pode parar. Que venham mais manifestações dessas até que as decisões deixem de ser unilaterais, impostas à força só para agradar meia dúzia de empresários e políticos. As decisões em uma democracia têm que ter como premissa primeira o bem estar da população… em todos os sentidos e em todas as suas esferas sociais, sexuais, morais, étnicas, universais… Se não for assim, não passa de ditadura disfarçada. E esse país, do qual ainda me orgulho, já deixou claro em sua história que contra ditaduras… a gente luta.

Tullio Andrade

Minha Poesia — 16 de maio de 2019
O tempo de uma lágrima — 14 de maio de 2019

O tempo de uma lágrima

O tempo de uma lágrima cair não há como medir… Mensurar o relativo absoluto de uma saudade, de uma dor ou de uma ausência. Nem mesmo há como explicar todas as nuances desse infinito embaralhado de sentimentos que incessantemente se alternam na coxia de minha alma, antes das cortinas dos meus olhos se abrirem para que a minha lágrima se ilumine.

Ela percorre a planície já não mais lisa do meu rosto… esgueirando-se por entre as rugas que o tempo insistiu em cravar nas minhas feições, hoje, quase sempre tristes. Talvez a ausência, a saudade, ou qualquer outra sensação incompreensível para mim, impulsionam, com a auxílio da gravidade, esse único envólucro líquido salino em direção ao chão… como se o fim de tudo fosse se infiltrar no solo.

O tempo de uma lágrima cair, dessa lágrima específica, levou uma década. Nasceu, de início, num sorriso indiscreto, malicioso, talvez sincero. E esse sorriso me encantou; e me fez amar. Amar uma coisa que eu não sabia nem como mensurar… Como não sei até agora… o tempo dessa lágrima. Mas era como se eu não tivesse tempo a perder pensando nisso. Então apenas amei. Amei desse meu jeito atrapalhado, inquieto, demais apaixonado… Me joguei… Caí… lançado ao vazio, no escuro, na esperança de achar amparo num beijo, no colo daquela mulher que mudou tudo.

Mas talvez o peso de minha vida tenha sido demais para suportar; e ela se foi… E mesmo depois, depois de tudo, tudo aquilo que me fez sofrer, não sei deixar de amar. Confesso que já tive vergonha disso, mas não mais. Amor não se nega… se aceita, se entende. Não é justo fugir dele se escondendo em aventuras passageiras. Amor é o que nos define… a todos nós. E ele nunca acaba. Talvez se transforme… numa coisa tão mais bela, que a gente não consegue entender. E é por isso, por essa incompreensão (a meu ver desnecessária no fim das contas), que a gente ainda se deixa chorar.

 

Tullio Andrade

Honestidade — 11 de maio de 2019

Honestidade

– Filho, isso é errado! Você não pode simplesmente pegar as coisas dos outros dessa forma.
– Mas por quê?
– Porque você não é bandido, meu filho. Você ia gostar que alguém pegasse seus brinquedos sem sua permissão e levasse embora pra sempre?
– Não.
– Então por que você acha que tem o direito de fazer isso com as coisas dos seus colegas?
– Mas é que…
– Não tem “mas”… É errado! Não tem nada que justifique o que você fez.
– Mas, pai, os outros meninos sempre fizeram igual. Até pior. Já pegaram até dinheiro…
– E desde quando o fato de outra pessoa ter roubado antes te dá o direito de roubar também? E mais ainda, dede quando isso, de alguma forma, perdoa você pelo seu roubo? Se outros roubaram antes, não te dá a permissão pra roubar também.
– Eu sei. Mas é que você fala como se eu fosse um criminoso. Só que todo mundo já fez igual…
– Meu filho, roubo é crime! Não importa se outros fizeram antes. Você me justificar sua atitude errada com o argumento de que fulano já fez pior antes é ridículo. Inaceitável. Isso é o tipo de desculpa que só uma pessoa igualmente de índole ruim faria. Falar isso é defender a bandidagem. Não tem o menor cabimento. Você entende isso?!
– Sim. Desculpa.
– Mais do que desculpa. Você agora precisa ser punido por isso. Para aprender que toda atitude errada precisa ser reparada e punida. Então, amanhã você vai devolver esse brinquedo, vai pedir desculpa e vai contar pra sua professora. E aqui em casa você vai ficar uma semana sem ver vídeos no celular.
– Mas pai…
– Não adianta chorar. Se eu não fizer isso, eu estarei sendo conivente com seu roubo. Serei tão bandido quanto você foi, porque estarei acobertando um erro. Não posso te perdoar ou aceitar o que você faz de errado só porque seus amigos já fizeram pior no passado!

[…]

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“Presidente da República indiciado por compra de votos durante a campanha”

Comentários:
– Vcs são uns bando de filho da puta, comunistas. Que só sabem torcer contra o Brasil. Eu votei nele porque não dava mais pra suportar a bagunca que esse país virou. E vcs, na verdade, não aguentam quando um cara de coragem vem pra mudar as coisas, aí ficam dando atenção a esse tipo de noticia só pra sabotar o país! Vão pra Cuba!!!
– Então você realmente acha que fiscalizar e investigar denúncias graves como essa é querer o pior para o país? Acho que seus valores estão mesmo deturpados!
– Ah, vai se fuder… Pior foi o roubo que seu partido fez quando tava na presidência. Disso você não fala nada né!

Tullio Andrade

No cemitério — 9 de maio de 2019

No cemitério

Te olho assim e penso que os anos foram cruéis com você… Ou será que foi você que foi cruel com os anos da sua vida?

Sinto seu rosto se deteriorar aos poucos… Como se cada linha de expressão e cada ruga que se desenhou no seu rosto fosse uma espécie de cicatriz dos golpes severos que a vida… Ou melhor, que você mesma desferiu contra você. Eu agora apenas sinto… porque, de fato, não consigo mais te ver de verdade. É mais como uma visão emocional.. transcendental… Não sei explicar. Talvez porque o clima desse lugar deixe a gente sempre assim.

Agora só nos “vemos” aqui nesse cemitério. Não, não é algo pra ser triste. Na verdade, parece tudo em paz agora… Talvez a paz que em vida não se alcançou. De qualquer forma, esses encontros têm sido cada vez mais esporádicos. Natural. Culpa do tempo, que afasta as pessoas… principalmente aquelas que já estavam separadas antes da morte. O tempo é implacável! Ele faz as lembranças se perderem e a saudade se diluir nos afazeres da nova vida… A vida que segue… Como você sempre gostou de dizer.

E enquanto foi possível, eu assisti, mesmo que de longe, sua vida seguir. Reconheço que não foi um espetáculo bonito de se ver. Acompanhei o deteriorar de suas alegrias, o esmaecer de sua felicidade, o dispersar da sua beleza; e presenciei, a certa distância, você afundar sua vida em mentiras, traições, crimes e relações abusivas.

Todos os sonhos que um dia você ousou ter, se perderam na inconsequência e na inconsistência de suas atitudes. Você conseguiu ter tudo nas mãos e simplesmente jogou no ralo. O mesmo ralo pra onde sua vida escorreu… enquanto, incrédula, você culpava outras pessoas… Elas é não têm culpa.

Hoje é fácil pra mim, falar tudo isso. Porque tudo acabou… Agora pra sempre. Porque na morte não tem volta. É apenas o fim. E, quer saber? Às vezes parece que o fim já havia chegado bem antes de sermos obrigados a estar aqui nesse cemitério.

Passo muito tempo, porque tempo é o que não me falta mais, apenas pensando… lembrando cada momento do que fomos juntos… e de como tudo terminou. Não consigo deixar de achar injusto o adeus ter vindo de uma forma tão feia pra algo que parecia ser tão verdadeiro… e puro… e lindo. Mas é como você sempre disse: a vida segue. A merda é que parece que às vezes (ou quase sempre) a gente não tem controle pra qual caminho ela se inclina.

Sei apenas que, mesmo depois de tudo, ainda continuei por perto. Você sabe disso. E sofri. Sofri imensamente, não mais por uma ânsia desesperada para te ter de volta (entendi e aceitei o fluxo dos fatos), mas por ter que assistir a você destruir sua própria vida dessa forma. Parece piegas, mas sempre te falei que insistir em sentimentos menores como rancor, ódio ou coisa parecida, não te faria bem. Como não me fez, por muito tempo… Mas você nunca me deu ouvidos. E continuou girando na mesma órbita de autodestruição, consumação e tristeza.

Nunca gostei de te ver sofrer… Mas apenas muito tarde, e a um custo muito alto, foi que entendi que eu não tinha poder pra intervir. E você sabe que, muitas vezes, eu tentei te dar mais que uma mão… E não pedi nada em troca. No entanto, ainda assim você escolheu se afastar, rechaçando qualquer tentativa minha de te dar apoio. Com isso, destroçou ainda mais a sua própria vida… E, de uma forma ou de outra, arrastou a minha também pra um fundo qualquer de angústia e sofrimento.

Agora já é tarde demais! Pelo menos pra mim, que estou aqui, aprisionado a uma lápide com meu nome escrito. Em pouco tempo você não virá mais aqui derramar lágrimas de saudade, carinho e arrependimento. E quando isso acontecer, me sentirei feliz, enfim. Porque vou saber que você, finalmente, entendeu que pra você não foi o fim… Ainda não. Mesmo depois de tudo, você ainda está viva… Viva para, um dia, aprender que o caminho pra felicidade não é um caminho… É você mesma.

 

Tullio Andrade

Vingadores, avante! — 7 de maio de 2019

Vingadores, avante!

O mês passado, inevitavelmente, entrou para a história do cinema mundial. Vingadores – Ultimato não apenas quebrou (e ainda via quebrar) diversos recordes, como emocionou milhões de pessoas pelo mundo.

Até agora eu já assisti duas vezes no cinema… E creio que devo ir novamente. Mas isso não se trata de uma histeria consumista americanizada, como algumas pessoas têm criticado por aí. Longe disso! Óbvio que entendo e concordo com todos os argumentos de quem fala que a força econômica do cinema americano realmente atropela qualquer outra manifestação artística… No entanto, não creio que a culpa pelo desinteresse das pessoas por outras formas de cultura seja apenas do cinema americano. É algo bem mais complexo; e que evoca, também, a parcela de responsabilidade de cada um de nós nesse processo.

Deve soar “descolado” e “politizado” bradar por aí que todo mundo que curte filme de herói é alienado. Mas falar isso de forma solta e gratuita é, no mínimo, ser leviano. Ainda mais num momento em que passamos mais tempo diante de um celular reclamando (ou apenas perdendo tempo) do que realmente tentando achar soluções para questões mais importantes… Quem sabe até criando formas de valorização da cultura e estímulo à leitura, por exemplo.

Mas, críticas e debates culturais à parte, o filme arrancou lágrimas e gritos eufóricos por todo o mundo. E não é só porque somos todos manobrados por uma indústria cinematográfica capitalista. Isso de fato existe, mas existem também outros aspectos dessa relação com todos esses anos de filmes de heróis que devem ser destacados. Até mesmo porque o problema em consumir um “produto de massa” (vamos chamar assim) não é o fato de consumi-lo; o problema é consumir ele sem ter consciência de todos os aspectos que o envolvem (inclusive os aspectos positivos).

Confesso que eu nem ia escrever nada sobre esse filme (até mesmo porque os furos deixados por um roteiro meio preguiçoso me incomodaram um pouco), mas depois que conversei com algumas crianças e adolescentes e percebi como essa obra marcou suas vidas, me senti no dever de dar voz a eles (e a mim mesmo). Essa geração cresceu (e está crescendo) assistindo seus heróis favoritos nas telas; e “Ultimato”, para eles, é muito mais que um filme, é o fechamento de um ciclo muito importante de suas vidas. E eu entendi isso quando vi o deslumbramento do meu sobrinho e da minha filha quando o Capitão América faz aquela coisa lá no filme (que não vou falar aqui para não dar spoiler)… Era uma emoção genuína… Era eles torcendo e vibrando com um personagem que, por mais de dez anos, lhes ensinou sobre virtudes e honradez. Lições e valores que a gente, adultos chatos, reclamões e pseudopolitizados, esquecemos.

Então, quando vejo o Capitão América (que a princípio parecia ser uma caricatura da americanização idiota) ser retratado da forma como foi nesses anos todos (justamente criticando a hegemonia de grandes poderosos e fascistas) eu percebo o quanto ele foi importante na difusão para os pequenos de valores como justiça, igualdade, ética, lealdade e honestidade… E aprecio ainda mais quando ele prova para todos que esses sãos valores inegociáveis. E quer saber? Se você não percebeu isso e não discutiu com seus filhos sobre esses pontos a cada filme de herói que tivermos nessa última década, talvez o problema não seja os filmes, ou a indústria cinematográfica americana capitalista.

Nós precisamos de heróis! Nunca vou cansar de dizer isso. E ainda bem que a geração que esta aí formando seu caráter tem a oportunidade de ver heróis como esses no cinema (já que na vida real está difícil). Não lamento nem um pouco quando milhares de crianças lotam salas de cinema para ver o Homem Aranha. Porque ele é o cara que fala da necessidade de ajudar o próximo simplesmente porque você tem a capacidade de ajudar, sem querer nada em troca. Isso é ser herói. E é isso que torço para que essa geração traga de volta para os nossos dias…

Sabe o que me incomoda de verdade? Ou melhor, me aterroriza… É quando ouço essas crianças e adolescentes reproduzindo gestos banais em idolatria a falsos mitos de mal caráter, que apenas perpetuam a opressão, a segregação social, a violência, o machista, o preconceito, o ódio… tudo isso travestido de uma falsa moral tradicionalista inconcebível e cruel. Então que venham mais incontáveis filmes de herói, para que a gente possa se apegar a cada um deles; e ouvir o que eles têm a dizer.

Nas duas vezes que sentei na sala do cinema eu me emocionei. E num estalar de dedos, eu fui tragado, talvez por algum túnel quântico, para o idos da década de 80, quando eu criança assistia a meus heróis na TV… e vibrava com cada um deles… e aprendia também valores que até hoje orientam minhas atitudes. Sei que não sou o modelo perfeito de conduta (talvez ninguém seja), mas me inspirei nos melhores… E me esforço para chegar perto deles, dessa concepção de herói do cotidiano, que entende o valor do que é amor ao próximo, respeito, compaixão, solidariedade e união. Quando encarei a criança que fui, aquele garoto que amarrava um lençol no pescoço para pular de cima do muro, fingindo ser um super-herói, me mostrou novamente uma versão de mim mesmo que eu havia esquecido. E certamente voltei para casa, depois de ver Vingadores – Ultimato, um ser humano melhor…

E para encerrar esse debate inevitável, só tenho uma coisa a dizer:

“Eu sou o Homem de Ferro”.

 

Tullio Andrade

Toda a poesia — 4 de maio de 2019

Toda a poesia

O que é poesia?
Inspiração, transpiração
ou um amontoado de palavras
vomitadas num momento da angústia?

Pois eu digo:
– Poesia é tudo isso.
E mais…
Mas não sou eu quem pode dizer
o que vem a ser poesia.

Ela é beleza, sonho, sublimação.
É música aos corações apaixonados.
Mas é também, o aço que dilacera friamente
o coração dos que sofrem.
Ela é a tentativa inútil de imortalizar
todo o amor ou toda a dor.

Mas as palavras são frágeis,
e o tempo logo as despedaça.
Então, pra quê perder seu sono?
Guarde sua pena.
(Ela não sabe o que é vida!)
Vá para rua. Lá está o que procuras.

Poesia não é para ser escrita,
aprisionada cruelmente num pedaço de papel.
Poesia é para ser vivida,
A todo instante,
por toda a vida.

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