Acabou… — 31 de julho de 2019

Acabou…

mas tem mais…
O primeiro ano do projeto “Umas tantas coisas pra dizer” passou rápido e encerrou a primeira fase da iniciativa.
Agora os textos vão dar um pausa para repensar novas ideias e formatos para continuar divulgando a literatura… Espero em breve retornar com esse projeto…
Aqueles que quiserem adquirir os livros pocket com todos os 160 textos publicados ao longo do último ano, manda um direct no instagram que a gente conversa…
Abraços… e até breve.

Anúncios
Poeta de uma Sociedade Morta — 30 de julho de 2019

Poeta de uma Sociedade Morta

Carpe diem… Torne sua vida extraordinária! Parece que a tornamos… A gente aprendeu a fazer cada segundo valer a pena. Abandonamos o ostracismo, o ócio e a tristeza para mergulharmos num mundo infinito e maravilhoso de experimentações, experiências e sensações que talvez a gente nem se desse conta que poderiam existir… Nos desvencilhamos das amarras sentimentais e elevamos o amor-próprio a um mantra alardeado com entusiasmo… Salvamos a nós mesmos de uma vida medíocre e tacanha… Uma vida sem vida! O mundo, então, passou a ser percebido, enfim, na sua imensidão; e nossos sonhos deixaram de ser pequenos…

No entanto, eu penso: onde está a grandeza dos sonhos? Não sei se, de fato, está na quantidade de coisas (e de pessoas) que você (ou qualquer pessoa) experimenta… Como se cada uma delas fosse colocada numa prateleira ou numa time line que possa ser admirada; para que, ao final do dia, você possa dizer: “olha só quanta coisa eu fiz”… Mas depois que a luz apaga ou a tela escurece, o espelho que se reflete nos olhos só traz o vazio…

Prefiro meu mundo “medíocre”, meus sonhos pequenos… que me completam. Prefiro minha vida tacanha, que tem em si tamanha felicidade que, às vezes, nem eu mesmo sei mensurar. Porque ela é minha, é do jeito que eu escolhi, do jeito que pude escolher… E não se trata de puro conformismo… É apenas a contemplação de tudo que me rodeia, de toda a leveza que há na beleza de abrir os olhos e se sentir pleno… imerso, repleto… de sentimentos bons e ruins, de dores e sorrisos que me fazem cada vez mais “eu mesmo”; e não, a tentativa tosca e fracassada de ser outra pessoa, ou de emular um modelo de vida que pode até ser interessante e sedutor, mas está longe de ser o que me faz, de fato, feliz…

Aproveitar o dia não tem a ver com uma busca desenfreada (quase escravizante) para provar de tudo… Ninguém consegue isso. A ideia do “eu quero sempre mais” te oferece cada vez sempre menos… Te faz, na verdade, perder a vida, e não aproveitá-la… Uma vida se torna extraordinária pelos sentimentos e não apenas pelas sensações… Gosto de pensar que eu sou o sentimento que desperto nos outros… e em mim. E eu quero ser sempre amor… em cada um.

Por isso faço poesia… Porque poesia é a razão para estarmos vivos, como disse aquele personagem, naquela cena, daquele filme. E não tem a ver apenas com fazer versos, tem a ver com escrever sentimentos… em folhas de papel ou na alma das pessoas. E o amor é a forma da vida fazer poesia. E todos os dias ela, a vida, rabisca meus dias de versos… às vezes tristes, às vezes alegres, mas sempre felizes; porque estar vivo é além de experimentar… é sentir…

E parece que a gente perdeu essa capacidade de enxergar o que nos rodeia… para mirar apenas no que está além. E assim, seguimos correndo em busca de nós mesmos em horizontes intangíveis. E transformamos a vida numa superfície fina e frágil onde não podemos nos demorar num único local, porque ela pode romper… E, aí, afundamos num abismo infinito de angústia e depressão… Eu não preciso correr. Caminho devagar através do meu mundo “medíocre”, na minha vida tacanha, com meus sonhos pequenos… Porque sob meus pés há alicerces sólidos, erguidos pelos sentimentos que desperto nas pessoas que cruzam e se demoram no meu caminho. Porque as únicas coisas que sei fazer é amar e juntar palavras… Por isso, permaneço… e contemplo… e sorrio… e faço versos… e, assim, acredito que posso mudar o mundo…

Porque sou Poeta de uma Sociedade Morta.

 

Tullio Andrade

Te fiz eterna — 27 de julho de 2019

Te fiz eterna

Eu te fiz eterna… Tão terna… Esculpida em cada palavra torta de traços perfeitos que rabisquei num pedaço de papel… que depois amassei… mas não arremessei… nunca pra longe de mim, porque o que, pra mim, você foi, sempre serei eu. É parte de mim, como sou parte de tudo… Tudo que me fez despertar algum sentimento… por mais efêmero… em meu íntimo único… universal… tão meu… tão seu, que não sei como descrever.

De tantas diversas vidas que vivi, sendo eu sempre o mesmo apaixonado… por mim… por você… com você provei o que eu nunca quis… Não procurei. Mas me deliciei com cada momento. Cada gosto e desgosto que me fizeram o que sou… Porque tudo sou eu… e você. E você escorreu garganta a dentro de mim, trazendo seu sabor doce amargo, único, só seu, que sei reconhecer por onde eu estiver… E engoli seu cheiro… e transcendi a mim mesmo, inalando, sorvendo, sentindo… Trouxe você para uma existência a mais dentro de mim. Vida dentro da vida. E desde então, ser você é ser eu…

Por isso, te eternizar em versos e prosa… só me prova mais uma vez… sempre… constante… que não somos dois… e somos sim… cada um no seu lugar… mas o meu lugar é em vc… e o seu… anseio que seja ainda em mim… Porque ainda sinto como se cada impulso involuntário… apaixonado… para sempre… te busca… e te acha… todas as vezes que fecho os olhos… e só enxergo esse filme louco que fomos nós dois. E como disse… ele é nosso. Único. Exclusivo. Para mais ninguém assistir… E no final… é sempre feliz… mesmo se a gente disser adeus… Porque eu sou você e você sou eu!

Eu te fiz eterna… e assim me tornei imortal… ganhei outra vida… muitas delas… a cada dia que estive a seu lado. Mas agora apenas ouço seu riso… Às vezes ao longe… e olhos seus olhos… e me encontro na imensidão de leveza e incompreensão que é você… que sou eu em você… que é esse sentimento que temos um pelo outro. Tão forte. Tão real… Inútil entender… apenas para sentir… e se alegrar por ele existir… poque, na verdade, minhas palavras não servem de nada… O que nos faz eternos, de fato, é o que sentimos… sempre… um pelo outro…

Tullio Andrade

O tempo em que fui mais feliz — 25 de julho de 2019

O tempo em que fui mais feliz

Havia um tempo

em que os sonhos desciam ao chão

e minhas mãos podiam tocá-los.

Havia um tempo

em que o tempo era um sonho;

e o sonho, real.

Havia um tempo…

O tempo em que fui mais feliz,

no qual os dias eram extensos

e o crepúsculo eterno,

para que a noite nunca chegasse

e eu não tivesse que dizer adeus.

Havia um tempo,

Havia um sonho.

Havia você.

 

Tullio Andrade

A vida é muito curta pra perder tempo correndo atrás da felicidade! — 23 de julho de 2019

A vida é muito curta pra perder tempo correndo atrás da felicidade!

Quando pensei nessa frase me pareceu estranhamente chocante. Mas acho que é bem por aí mesmo… Caminhamos hoje pelos dias acorrentados a um fardo muito pesado que temos que arrastar para todos os lugares: a necessidade de ser feliz. E é justamente essa necessidade que torna vida cada vez mais infeliz.

Se popularizou nos últimos anos a ideia de que é proibido ser infeliz. E essa premissa, há muito, deixou de ser uma forma de fomentar a busca pelo bem-estar e passou a ser uma cobrança social… e individual. Até aí, nada demais. Até mesmo porque a gente está nesse mundo para ser feliz mesmo. O problema é que, às vezes, os conceitos perdem o sentido primordial das coisas… A ideia popularizada nas frases de efeito viralizadas nas redes sociais e nos divãs de terapia “fast-food” tratam a felicidade como se fosse a ausência de sofrimento. E aí é que está o problema… A felicidade sem dor não existe! É apenas uma forma (ou fórmula) fugaz e falaciosa de alimentar o medo da infelicidade… Premissa básica da sociedade de consumo.

A felicidade, nesse contexto, parece mais aquela mentira que a gente repete mil vezes todo dia, na esperança inócua de que ela se torne verdade. Mas não se torna. Porque o modelo social que hoje a gente vive, de consumo (não apenas de consumo de produtos, mas de pessoas e sensações…), é baseado exatamente nessa mentira, de que ninguém é feliz do jeito que está, você sempre precisa de algo, ou alguém, ou alguma experiência que te proporcione essa sensação de felicidade… Mas são “necessidades” pensadas para serem o mais efêmeras possíveis; e te dar esse sentimento de vazio depois que conquista cada uma delas… Para que você retorne ao seu círculo de voltas e voltas em busca de algo que, talvez, você nem quisesse de verdade… A busca eterna para encontrar o final do arco-íris. Só que sempre que a gente anda, ele se move junto…

Isso acontece porque essa felicidade (projetada em elementos alheios a você… ao que você sente de verdade) não é sua… Nem minha, nem de ninguém. Ela, na maioria das vezes é uma construção social ou psicológica que descarta e repudia o sofrimento. Porque o medo do sofrimento (da infelicidade) é o que move essa engrenagem. Como se sofrer fosse a anulação da felicidade. Assim, a dor tem sido tratada como uma doença contagiosa. Como algo a ser combatido, evitado e temido. Claro que ninguém gosta de sofrer, de sentir dor, mas essas coisas existem. E ninguém está livre delas. E mais que isso… Acho que a tristeza é uma parte importante de cada um de nós. Então, para mim, quando eu nego o meu sofrimento, eu nego a mim mesmo. Quando tenho pavor de ficar triste, é como se eu tivesse medo de mim mesmo…

Acho que faz-se necessário aqui, a título de esclarecimento, dizer que toda essa discussão sobre tristeza, sofrimento e dor se passa no que consideramos como ideal; ou pelo menos, mínimo aceitável de saciedade das necessidades básicas de sobrevivência de cada ser humano. Digo isso, porque pensar sobre essas coisas abstratas demais quando se está numa situação de fome, privação de liberdade, extrema pobreza etc., obviamente, se torna ridículo. Nessas situações extremas, o mundo e a noção de existência de si mesmo são completamente alteradas. Tenho consciência disso. Mas não é porque existem situações extremas que não devemos repensar certas questões quando estamos em situações “normais”… Acredito que toda reflexão, de alguma forma, contribui para evitar que situações extremas ocorram.

Dito isso, retomemos o ponto do debate… Não acredito que existe felicidade como algo a se alcançar. Acredito mais que seja uma escolha de vida, uma forma de ver as coisas, um estado de espírito, que muda sempre, que se altera, que se compõe de sentimentos complexos… Tudo isso de forma (nem sempre) harmônica e equilibrada. Um equilíbrio dinâmico, que nunca está parado, estaque, mas que é íntimo… nunca projetado em pessoas ou coisas ou experiências além das que você experimenta em si mesmo. A felicidade é um conceito íntimo e pessoal. Porque “para cada ser humano há um mundo perfeito feito especialmente para ele”*! E esse mundo perfeito é composto de sentimentos alegres e tristes… Porque o sofrimento faz parte da felicidade… porque é parte de você!

Uma vez eu falei para mim mesmo que não quero fugir da dor. Porque a dor me faz quem eu sou. Ela é parte de mim e parte do que me faz feliz. Quando a gente encara a dor, o sofrimento e a tristeza é que a gente se depara com o nosso “eu” verdadeiro. E sempre saímos disso de maneira mais evoluída… Saímos pessoas melhores. Mas todos hoje querem fugir do sofrimento. Querem desfrutar só a parte boa da vida. Isso tem nos feito cada vez mais incompletos… A consequência é sermos cada vez mais falhos (conosco e com o próximo)… E nossas falhas, inevitavelmente, vão gerar erros; e erros nos levarão ao sofrimento… Então, aqueles que repudiam a dor nas suas vidas, se veem presos ao paradoxo da infelicidade: quanto mais você foge dela, mas se aproxima… e, assim, alimenta as engrenagens da sociedade de consumo.

Diante disso tudo é que afirmo que é perda de tempo correr atrás da felicidade… Porque ela não está em lugar nenhum… mesmo que metaforicamente. Não está no relacionamento, na viagem, na balada, no sexo, nem nada do tipo. Não se corre atrás do que está em você; nem se foge do que, igualmente, faz parte da gente. A corrida para a felicidade se transformou numa fuga desesperada do sofrimento… Mas somos as duas coisas. Ser pela metade é uma porta aberta para as doenças psiquiátricas e para as tragédias cotidianas. O que nos resta fazer é apenas frear, sentar e observar a si mesmo… E entender o que faz nos sentir bem… bem consigo mesmo. E a partir dessa reflexão é que você (e eu) vai saber dizer (e sentir) o que te faz feliz de verdade… Porque será a sua verdade, e não algo copiado de algum modelo que te apresentaram e te disseram que aquele era o ideal. E na sua verdade, não tem como você ser metade… Você é dor e alegria, lágrima e sorriso… o verso e o avesso de si mesmo… E por isso mesmo é que você pode dizer que já é feliz.

 

Tullio Andrade

Feministo — 20 de julho de 2019

Feministo

“Temos que parar de pensar no feminismo como uma espécie de festinha exclusiva para a qual poucas pessoas são convidadas. Nosso objetivo é a igualdade no mundo. Queremos chegar a um ponto em que não vamos mais precisar do feminismo. Para isso acontecer, todo mundo tem que se envolver. Portanto, precisamos de homens feministas para mudar outros homens”.

Chimamanda Ngoziadichie

Ao ler uma afirmação assim, vinda da mulher que hoje é um dos ícones mais importantes na luta pelo feminismo no mundo, começo a achar que o que eu penso sobre esse tema está no rumo certo.

Sempre que eu escrevia (ou tentava escrever) algo sobre feminismo (e machismo) e todas as implicações inerentes à questão, ouvia comentários como: “você é homem, não tem como ser feminista”, mesmo que em nenhum momento eu tenha me autointitulado assim. Mas desde a primeira vez que escutei isso, em tom de crítica, me incomodou muito. Na minha cabeça, feminismo não é, nem nunca será, uma questão de gênero. É uma ideia… e ideias podem ser abraçadas por qualquer pessoa. Obviamente que nunca poderei sentir (ou até mesmo entender) o que significa, na pele, os efeitos da opressão e da violência que o machismo gera… Mas isso não quer dizer que não posso me solidarizar e defender uma ideia que acredito… E, se for o caso, até me autoafirmar feminista.

Não sou nem de longe especialista no assunto… Mas a Chimamanda é. E é ela quem diz que a luta pelo feminismo precisa da participação dos homens. E ela vai além, diz que os homens precisam ser feministas também. E ela fala “feminista”… Destaco isso porque não foi só uma vez que ouvi críticas de pessoas me chamando de “feministo” em tom de escárnio; ou mesmo dizendo que ando escrevendo texto sobre esses temas porque virou modinha e eu tô querendo só “ganhar biscoito” (confesso que eu nem conhecia essa expressão).

Particularmente, acho que o mais interessante e produtivo para o contexto geral seria que essas pessoas discutissem comigo (ou com quem quer que seja) os argumentos que expus, as ideias que formulei (ou que apenas reproduzi); e não, ficarem questionando se eu só quero ganhar like enquanto poso de intelectual engajado diferentão…

Quer saber? Não sou diferentão… Por vários anos da minha vida fui um machista típico. E há poucos anos tenho tentado combater dentro de mim atitudes assim. E isso é porque sou um cara desconstruído e preocupado com o bem-estar geral e a igualdade social? De verdade, eu queira que fosse algo assim mais altruísta. Mas não é. O que me fez atentar para essas questões foi porque eu quero muito que o mundo onde minha filha vai crescer seja menos violento e opressor para ela. É meio egoísta, né! Mas como eu disse, não quero posar de bom samaritano superengajado.

E mais que isso. Pra mim, tentar combater anos e anos de comportamento machista é complicado. Por isso que sempre peço para que as mulheres com quem convivo me alertem todas as vezes que eu tiver atitudes ou disser coisas que as ofendem. E faço isso porque, nesse processo, o diálogo é determinante. Não é apenas o embate (esse tem que existir em determinadas situações), às vezes uma conversa consegue promover mudanças até mais significativas do que um grito (muitas vezes apenas virtual) ou o deboche contra quem tenta se esforçar para mudar.

Nesse pouco tempo que tenho tentado entender melhor o olhar feminino sobre o mundo (e o olhar que esse mundo – machista – tem sobre elas), tenho aprendido muito mais sobre mim mesmo enquanto homem do que em todos os anos em que reproduzi comportamentos de autoafirmação idiotas de masculinidade. Já escrevi aqui sobre a importância de se debater o papel do homem na sociedade… e não apenas tratar eles, nesse processo de empoderamento feminino, como coadjuvantes (ou mesmo vilões). Eles fazem parte (e na maioria dos casos são causadores e mantenedores) do problema, mas se eles não fizerem parte da solução, nada vai mudar. Nunca. Me corrijam se eu estiver errado, mas acho que foi isso que a Chimamanda quis dizer.

Então, quando me exponho para debater e resignificar a minha masculinidade frágil (construída sobre preceitos preconceituosos que, no fundo, são apenas mecanismos de encobrir uma verdade que nenhum homem quer admitir: a de que nem a gente mesmo sabe, de fato, o que é ser homem) é um comportamento que acho que devia ser estimulado (e não ridicularizado), para que outros homens tenham essa atitude de repensar o que os torna homens… Porque, inevitavelmente, a partir dessa reflexão, eles vão compreender melhor a sua relação com o sexo oposto… e com todos os sexos. Porque a sensação que tenho é que boa parte dos homens que colocam a mulher numa posição inferiorizada é para encobrir as suas próprias frustrações enquanto “machos”. O homem que não sabe o que é ser homem acha que subjugando a mulher, ele finalmente vai compreender e exercer sua masculinidade plena. Não é por aí. E é por isso que o diálogo é importante… desde cedo.

Gosto de uma afirmação que ouvi uma vez num grupo de mulheres vítimas de violência doméstica. Uma delas disse que a melhor forma que ela tinha de contribuir para acabar com isso, era ela educar o seu filho para ele não ser um futuro agressor. Pensei muito sobre isso… E acho que vem ao encontro do que afirmo aqui e do que a Chimamanda fala ao querer trazer os homens para esse debate. Pode parecer piegas (ou apenas uma tentativa de “biscoitagem”) mas acredito mesmo que a melhor forma de mudarmos o mundo é influenciarmos o espectro local a que temos acesso. E sim, isso faz toda a diferença. Se essa mulher que citei educar o filho dela, se eu educar a minha filha, se eu influenciar amigos ou meus poucos leitores a repensar essas questões entre homens e mulheres, a gente pode fazer a diferença. Essa mesma mulher do exemplo que dei encerrou a fala dela com uma expressão que acho fantástica. Ela disse: “se eu conseguir que meu filho respeite as mulheres, eu posso estar salvando várias vidas lá na frente”.

É assim que se muda o mundo!

Tullio Andrade

Minuto de Silêncio — 18 de julho de 2019

Minuto de Silêncio

Mergulhamos no tempo
e não nos demos conta disso.
Atravessamos as horas
sem saber o que elas diziam.

Melhor assim!

Nos divertimos com nossas brincadeiras inocentes
(e outras já nem tanto),
cantamos nosso primeiro amor,
estranhamos o primeiro beijo,
hesitamos no primeiro sexo
e, desesperadamente, choramos no primeiro adeus.

Havíamos mergulhado no tempo.
O tempo já nos guiava.
E com suas implacáveis ondas
nos arremessava violentamente
contra as pedras agudas do envelhecimento.

Atônitos perguntávamos:
Perdemos nossas horas?!

Mas não havia resposta.
Esgotava-se nosso tempo e
em nenhum momento podíamos aceitar.
Então, nostalgicamente, fitamos nossos horizontes perdidos
e saltamos para o impossível.
E nadamos contra os ponteiros…
Mas morremos alguns minutos depois.

O tempo acabou.
Os relógios pararam…
Num interminável minuto de silêncio.

 

Tullio Andrade

Último dia — 16 de julho de 2019

Último dia

Todas as manhãs, quando o dia começa, eu penso: hoje pode ser o último.

E imediatamente reflito se tudo valeu a pena. Se vivi a vida do jeito certo. Como se existisse jeito certo! Me questiono se eu fui feliz. Penso, se eu morrer hoje, como as coisas ficarão. Como será que as pessoas vão lembrar de mim… Será que as coisas que fiz ou disse farão ainda alguma diferença… Se é que hoje fazem.

E penso, inevitavelmente, na minha filha… E na dor que ela vai sentir… Sei que a vida é imprevisível; e pode ser até que ela se vá antes de mim. Mas não é isso que a gente espera. É contra o fluxo natural da vida um filho partir antes… Mas se partir, não terei, de verdade, motivo para mais nada… Porque todos os meus dias nos últimos 14 anos foram por ela… E todos os próximos que virão, serão da mesma forma. Porque isso me faz feliz.

Embora eu saiba da dor que ela sentirá, quando eu partir, tenho certeza que, no fundo do coração, ela vai saber que foi tudo lindo. Que parti da mesma forma que vivi: como o homem mais feliz do mundo. Simplesmente porque ela existe na minha vida. Simples assim… como a vida tem que ser.

E todos os dias… Todos mesmo, sem exceção, a gente se abraça e diz que se ama. E vive esse sentimento ao extremo. Sem medo por saber que um dia isso pode terminar… Porque tudo na vida termina… porque a vida termina. Mas o que a gente sente, transcende a vida. Então para quê ter medo?

Sou o homem mais feliz mundo… Não cansarei de dizer, por mais piegas e idiota que possa parecer, que agradeço a cada segundo todos os segundos que estive vivo para ver minha filha se transformar nessa mulher que ela está se transformando. Todo meu orgulho por ela ser alguém muito melhor que eu… Por ter um coração lindo… cheio de amor, compaixão e empatia. Coisas que esse mundo que vem por aí precisa.

Que meu legado para o amanhã seja ela… Seja essa pessoa linda que ela se torna a cada dia… E todos os dias eu mais aprendo com ela do que ela comigo. E as lições que ela me passa são de respeito, amor e felicidade. E é por isso que, todos os dias, eu penso que pode ser o último… Inevitavelmente, um dia será… Mas, mesmo assim, todos os dias eu saio de casa em paz, porque sei que tudo já valeu a pena…

 

Tullio Andrade

Dunning-Kruger — 13 de julho de 2019

Dunning-Kruger

A revolução da informação trouxe a falsa convicção nas pessoas de que elas detém todo o conhecimento. Tudo isso porque toda a informação do mundo está ao alcance da mão. Literalmente. Mas o que ninguém se tocou ainda é que, normalmente, a gente confunde informação com conhecimento. E aí, o que acontece é o efeito Dunning-Kruger* generalizado.

Todo mundo, agora, se acha autoridade em tudo. Ninguém mais tem a capacidade de assumir que não tem capacidade para opinar sobre algo… Chegando ao ponto de alguém ter a certeza que sabe mais sobre o outro do que o próprio outro. Um exemplo besta disso: alguém certamente vai dizer que foi um erro repetir na mesma frase a palavra “capacidade”, como eu fiz aqui. E nem vai adiantar eu dizer que é intencional (recurso literário), pois ainda vai ter gente dizendo que não foi intencional coisa nenhuma, foi erro mesmo. E sabe o que é pior? Uma multidão vai concordar que foi erro… Talvez porque todo tenha esse fetiche, resultante de um complexo de inferioridade mal resolvido, que só se apazígua quando identifica erros nos outros. Como se os erros dos outros fizesse você ser melhor…

Desabafos à parte… Hoje temos tanta informação o tempo todo a todo tempo nas mãos, que em algum momento, certamente você já leu ou assistiu a algo que trate de qualquer assunto no mundo; seja da guerra na Síria à nova ordem geopolítica mundial, passando pelo casamento real e até mesmo as novas sondas da Nasa. Tudo passa na sua mão. E aí, por ter lido um ou outro post, ou uma ou outra manchete caça cliks, você acha que já sabe tudo sobre aquele assunto… Ou, pelo menos, acha que sabe o suficiente para opinar sobre algo que, de fato, não tem a menor ideia do que se trata… Mas opina mesmo assim… ainda mais quando isso viraliza… Só que a merda é que essa opinião ecoa com facilidade atualmente… e traz consequências perigosas para a vida real das pessoas…

Uma vez um amigo meu falou que “todo mundo tem opinião, até os idiotas”. E, de fato, todos nós somos idiotas uma hora ou outra. Só que hoje, a gente se esforça para ser assim o tempo todo. E não tem coisa mais temerária do que um ignorante achando que sabe a verdade. Veja o Brasil de 2019! O viés de confirmação nunca foi tão determinante para a perpetuação desse modelo de superioridade ilusória generalizada. E é nesse terreno que, assim como os idiotas, ganham espaço para difundirem suas opiniões, os racistas, os homofóbicos, os extremistas, os ultraconservadores, os ultraliberais… os radicais de um lado e do outro… de todos os lados. Cada um difundindo sua versão da verdade, mesmo que seja uma versão superficial calcada em fatos falsos e convicções inconsistentes… O que importa, para eles, é o eco que isso pode ter. Como se quanto mais pessoas repetindo a mesma mentira, ela se tornasse verdade… E não preciso, de novo, destacar como líderes de nações foram forjados, aclamados e conduzidos ao poder com base única e exclusivamente nessa dinâmica de manipulação eficiente de efeito Dunning-Kruger e do viés de confirmação num panorama de proliferação de notícias falsas.

Mas essa forma de lidar com as nossas “verdades” e com o nosso “conhecimento” não é exclusividade dos líderes de Estado. Aqui, bem embaixo, na realidade das pessoas, a gente age da mesma forma… Por isso mesmo que isso se reflete nas esferas mais altas de poder. Ninguém quer admitir que não é o dono da verdade absoluta. Hoje, ganhar uma discussão na internet (ou na vida real) é mais importante do que adquirir conhecimento sobre o assunto (até mesmo porque todo mundo já acha que sabe de tudo, né). Consequência disso é que o argumento de autoridade não existe mais. Antes, se você queria saber sobre física quântica, procurava o Doutor que estudou a vida toda aquele assunto. Hoje, todo mundo sabe física quântica porque já viu um vídeo no YouTube. Parece de pouca importância dizer isso, mas por trás existe um descrédito e desrespeito ao conhecimento, às instituições de ensino e a toda a ideia de educação. Viramos uma sociedade em que todo mundo acha que sabe tudo, mas, no fundo, ninguém sabe nada. Por isso não avançamos. Na verdade, o que se vê é um retrocesso perigoso em todos os aspectos da vida… Desde a contestação a preceitos científicos provados e comprovados ao longo dos séculos, a padrões de comportamento ressuscitados da idade média. O problema nisso tudo é que pessoas morrem nesse processo. Seja por ignorância, seja por arroubos de fúria e violência…

Acreditar que sabe tudo, só faz de você mais um idiota com opinião formada sobre qualquer coisa… Uma vez um cara falou: “só sei que nada sei”. Não era só um jogo de palavras… E esse cara não era nem um pouco idiota. De qualquer forma, talvez tudo que eu falei aqui seja besteira; ou então apenas mais mostra do efeito Dunning-Kruger na prática. Quem vai saber?… Certamente, não eu.

Tullio Andrade

 
*O efeito Dunning-Kruger é o fenômeno pelo qual indivíduos que possuem pouco conhecimento sobre um assunto acreditam saber mais que outros mais bem preparados, fazendo com que tomem decisões erradas e cheguem a resultados indevidos; é a sua incompetência que os restringe da habilidade de reconhecer os próprios erros[1]. Estas pessoas sofrem de superioridade ilusória.

A Caverna — 11 de julho de 2019

A Caverna

A caverna. Escura, úmida, silenciosa. Dessa vez sem companhia, apenas uma pessoa acorrentada. Apenas uma pessoa a contemplar as sombras que, de quando em quando, atravessam sobre as paredes rochosas. Impressões do mundo. Um mundo distorcido nas interpretações afetadas dessas impressões. São as consequências de um cárcere, em essência, voluntário, mas que se tornou impossível libertar-se por vontade própria.

Ele é agora refém da escuridão. E se a luz, um dia, o arrastar para além das frestas que servem apenas para evidenciar sua limitação, o brilho invadirá seus olhos, queimando suas retinas como feixes ardentes que rasgam os tecidos oculares, levando-o quase à cegueira. Isso é o que ele pensa. Por isso se mantém em seu refúgio, protegido de qualquer ameaça, longe do brilho imperativo e severo.

A luz agora é dor. E a dor é o que já não interessa… além daquela que ele traz consigo. É preciso estar atento, numa vigília constante. Antes que uma sombra se aproxime e o leve desse esconderijo. Mas um dia, as forças se exauriram e, num instante que não chegou a ser breve, uma sombra se avolumou nas paredes, envolveu aquele homem e, de súbito, o trouxe outra vez às contemplações do mundo. O mundo além da caverna.

No silêncio de seu pavor, um grito ensurdecedor rompeu as barreiras de suas aflições ao

momento em que seus olhos se abateram à luz. E a escuridão se instaurou, a cegueira que o amedrontava… E o medo não permitiu que suas pálpebras se erguessem de imediato. Mas a cargo de dias, semanas, ou outra forma de mensurar o tempo, que ali se mostrou em sua plena relatividade física e psicológica, arrefecidamente as imagens do mundo, por entre gretas oculares que se abriam letargicamente, se avultaram. E eis que a efígie de uma tela harmoniosa se fixou nas cores e formas das reais impressões que há muito, para ele, eram vilipendiadas.

Imediato foi seu fascínio, personificado num deslumbramento que ultrapassava até mesmo a esfera de suas contemplações. Não havia prodígios, monumentos, fenômenos ou qualquer outro aspecto extraordinário naquelas imagens que ele observava. Mas sua natureza, no íntimo agora externado do seu ser, se apresentava transfigurada, numa metamorfose instantânea, que forneceu as asas suaves que ele precisava para poder, outra vez – ou talvez, pela primeira vez-, conhecer as belezas que sua existência escondia entre os temores que o esplendor da luz, sem essa cruel intenção, impõe aos olhos há muito imersos na escuridão.

Mas seus olhos agora abriram e puderam ver essa luz, contemplando um rosto do qual ele só conhecia a sombra posta sobre a superfície das pedras. E esse rosto, lentamente, assumiu sua verdadeira forma… Uma síntese sublimada de todas as manifestações da beleza universal, o amor… personificado no involuntário sorriso, ao qual se entregou e dele se tornou eterno amante.

 

Tullio Andrade

Crie um novo site no WordPress.com
Comece agora
%d blogueiros gostam disto: